Em diferentes partes da cidade, Perón e Evita continuam sendo lembrados e homenageados mesmo após décadas de suas mortes

Quadro do casal Perón exposto no Museo del Bicentenário

Confira a  matéria produzida por nosso correspondente Fábio de Nittis durante o Programa Jornalismo sem Fronteiras, em Buenos Aires.


Quem visita Buenos Aires logo percebe que Evita Perón está presente em todas as partes da cidade, apesar de transcorridos 60 anos desde sua morte. Ela tem uma estátua acenando para os turistas no Caminito, no bairro de La Boca. Tem um retrato de vários andares de altura do lado de fora do prédio do Ministério de Desenvolvimento, em plena Avenida 9 de Julio, como se olhasse permanentemente para Buenos Aires. Também está presente em lojas, no comércio e em dezenas de tipos de lembrancinhas feitas para os turistas. Causa filas todos os dias em seu túmulo no Cemitério da Recoleta. É uma figura praticamente onipresente no dia-a-dia da capital argentina.

Nascida na província de Buenos Aires em 7 de maio de 1919, Maria Eva Duarte de Perón pertencia a uma família pobre e não foi registrada pelo pai, fator que teria contribuído para despertar nela a vontade de se destacar na vida. Por isso, sonhava em ser artista e se mudou para Buenos Aires ainda aos 15 anos. Passou em 1937 pelo cinema e foi contratada para atuar em rádio novelas, se destacando na série “Grandes mujeres de todos los tiempos”, na Rádio El Mundo.

Costumava dizer na adolescência que só se casaria com um príncipe ou com um presidente. E foi o que aconteceu. Em 1944, ela conhece o general Juan Domingo Perón, com quem se casa.

Evita se torna famosa na Argentina pela sua elegância e especialmente pelo seu carisma, aspecto fundamental para o sucesso do peronismo. Foi responsável pela conquista da população pobre, em sua maioria migrantes de origem rural, que se tornaram conhecidos por serem os “descamisados”. Para Francisco González, estudante de história e monitor no Museo del Bicentenario, Evita era o coração do casal Perón, porque era a responsável por fazer a conexão do governo com o povo.

Vítima de câncer, morre em 26 de junho de 1952, pesando pouco mais de 30 kg. Teve um funeral longo, que durou 12 dias. A espera para dar o último adeus ao corpo de Evita mobilizou milhões de argentinos de todas as regiões do país e levava o dia todo. Seu corpo é roubado durante o golpe de 55. É encontrado na Itália dezesseis anos depois, enviado para a Espanha para posteriormente ser trasladado para a Argentina e ser enterrado no Cemitério da Recoleta, onde permanece até hoje.

Já o general Juan Domingo Perón viveu entre 8 de outubro de 1895 e 1º de julho de 1974. Foi o único presidente eleito três vezes: em 1946, completando o mandato deste ano até 1952; em 1951, para um mandado que começaria em 1952 e se seguiria até 1958, caso não fosse interrompido por um golpe militar em 1955, que resultou em bombardeios na Plaza de Mayo e fez com que Perón fosse obrigado a ficar 18 anos em exílio; e em 1973, para um mandato de quatro anos que não foi todo cumprido pelo seu falecimento.

 

Inspiração

Evita também é fonte de inspiração para a atual presidenta da Argentina, Cristina Fernandez de Kirchner, viúva de Néstor Kirchner. A presidenta assumiu em 2007 e, após ter sido reeleita com 54% dos votos em 2011, está no segundo mandato, previsto para terminar no fim de 2015.

Cristina utiliza discursos semelhantes ao de Evita, tanto em conteúdo quanto em forma. Além disso, frequentemente adota a maquete da imagem de Evita no Ministério de Desenvolvimento como cenário para os seus discursos. A imagem está localizada no Salón Mujeres Argentinas del Bicentenario, o salão na Casa Rosada feito em homenagem às mulheres mais marcantes nos 200 anos desde o início do processo de independência da Argentina.

 

Locais peronistas

Diante da importância histórica de Perón e Evita, Buenos Aires tem espaços que fazem referência à época. No Museo del Bicentenário, localizado atrás da Casa Rosada, na Plaza de Mayo, há uma parte especialmente voltada para o peronismo, além de um quadro de 1948 de Perón e Evita. O peronismo também é homenageado no Museo Testimonial de Eva Perón, inaugurado em 2003 em San Telmo, com quadros e documentos da época. Foi lá que o corpo de Evita repousou durante quase três anos, até ser roubado em 1955. Evita também tem um museu próprio, localizado no bairro de Palermo, com dezenas de artigos da líder política.

Além disso, há também bares e restaurantes temáticos sobre Perón, Evita e o peronismo. Confira:

 

El General

Quadros com decoração peronista compõem o cenário do El General

Uma ótima opção para quem passa por San Telmo, bairro movimentado especialmente aos domingos por conta da feira de artigos que acontece na região, é o bar El General.

O restaurante foi o pioneiro dos bares temáticos do peronismo. Entretanto, anos mais tarde o restaurante fechou por conta de briga entre os sócios, que deixaram o estabelecimento com dívidas, inclusive em relação ao salário dos funcionários. Os empregados, em busca de seus direitos, acabaram ganhando o direito de controlar o bar. Com a ajuda do governo nacional, foi montada uma cooperativa com 10 dos antigos funcionários e hoje são eles controlam o local – em novo endereço, mas ainda na Avenida Belgrano – sob a liderança de Victor Abalos, antigo garçom e atual tesoureiro do local.

O local é bastante frequentado por turistas de todas as partes do mundo, inclusive pelos brasileiros, que admiram a decoração do local e que geralmente chegam ao local com alguns conhecimentos sobre Evita e sobre a atual presidenta argentina. Além disso, o restaurante foi declarado lugar de encontro político e cultural pela legislatura da cidade de Buenos Aires.

Logo na entrada, o restaurante apresenta uma série de objetos da época de Evita e Perón, como constituição argentina, quadros com citações do casal e fotografias. Dentro do El General, há quadros que retratam Evita e Perón em diversas situações, além de bandeiras argentinas, imagens, objetos e depoimentos.

O restaurante está instalado em um ambiente de móveis de madeira, com paredes e tetos de pequenos tijolos expostos. O local tem capacidade para 250 pessoas, no andar térreo e em um mezanino.

O cardápio é bastante variado, com opções para todos os gostos. Há uma série de opções de entradas, omeletes, tortilhas, carnes vermelhas e de porco, aves, porções, churrascos, peixes, frutos do mar, molhos, massas, saladas e sobremesas. Para beber, há bebidas não alcoólicas e bebidas alcoólicas, com variedade de vinhos.

A casa conta ainda com um show de tango, que acontece todas as sextas e sábados à partir das 22h

Serviço:

Horário de funcionamento: todos os dias, das 12h às 16h e a partir das 20h.

Endereço: Avenida Belgrano, 350 – San Telmo

 

 

Un Café con Perón

 

Restaurante na Recoleta é a antiga casa de Evita e Perón

Outra opção é o Un Café con Perón, no elegante bairro da Recoleta. O lugar, localizado na rua Áustria e construído em 1922, é um ponto importante na história argentina. Foi ali que o casal Perón viveu, a partir do ano de 1946, e onde Evita morreu, em 26 de julho de 1952. A casa continuou sendo habitada por Perón até 1955, quando o então presidente sofreu um golpe militar.

A habitação foi se degradando com o passar dos anos, mas foi restaurada recentemente para a inauguração do café temático, que ocupa uma parte do complexo. Apesar da reforma, vários aspectos dos ambientes foram mantidos, como o piso e a madeira, que são reaproveitados daquela época. Também foram feitos alguns reparos com o objetivo de manter os objetos originais. Em 18 de outubro de 2010, um dia depois do aniversário do nascimento do peronismo (que ocorreu em 17 de outubro de 1945 e se tornou também o Dia da Lealdade), o café foi inaugurado.

O espaço tem paredes claras e é bem iluminado por luz natural, ideal especialmente para tomar um café da tarde. A decoração é composta por imagens de diferentes etapas da vida de Perón e Evita, que estão espalhadas por todo o café, além de documentos daquela época. O grande destaque para os turistas é uma mesa com uma estátua de Perón tomando café. É possível sentar ao lado da estátua e tirar foto como se estivesse interagindo com o ex-presidente. O café tem capacidade para 70 pessoas, distribuída em mesas que tem marcações com datas e outros aspectos importantes do peronismo.

O cardápio traz opções de bebidas alcoólicas e não alcoólicas, como refrigerante, água e diversos tipos de chá e lanches. O preço está abaixo da média de outros cafés da cidade, apesar da localização em um dos bairros mais caros de Buenos Aires.

Apesar de ter fácil acesso, o bar é localizado em uma região tranquila e de muitos prédios residenciais. Por isso, em meio aos turistas, é possível encontrar muitos moradores no café, debatendo sobre o peronismo, sobre o governo atual e inclusive fazendo estas discussões portando uma Constituição Argentina para esclarecer eventuais dúvidas.

Mantido pelo Instituto Nacional Juan Domingo Perón, instituto voltado para os estudos e investigações de questões históricas, políticas e sociais, o local conta ainda com uma sala com sistema audiovisual para a transmissão de vídeos e documentários sobre Perón.

Serviço:

Horário de funcionamento do café: de terça a domingo, das 9h às 20h.
Horário de funcionamento do instituto: de segunda a sexta, das 10h às 17h.
Com acessibilidade e elevador

Endereço: Rua Áustria, 2601 – Recoleta

 

 

Perón Perón

No Perón Perón o visitante pode escrever o seu recado na parede

Bairro vizinho à Recoleta, o Palermo abriga mais um dos bares temáticos do peronismo: é o Perón Perón, que recebeu este nome devido à fórmula presidencial que propunha Juan Domingo Perón como presidente e Evita Perón como vice-presidenta.

O local é, dentre todos os bares, o que mais conta com artigos relacionados ao peronismo. São centenas de artigos sobre o tema, além de outros objetos relacionados à época, como aparelhos de TV bastante antigos. Algumas das televisões transmitem aos visitantes do bar documentários relacionados a este momento da história argentina.

Além disso, o diferencial deste bar é que ele não faz homenagens apenas a Evita e Perón. Há algumas mensagens de apoio ao kirchnerismo, um dos ramos do peronismo, que representa a linha de pensamento favorável ao governo de Néstor Kirchner (ex-presidente argentino, que governou o país entre 2003 e 2007) e Cristina Kirchner, sua esposa e atual presidenta. Encontra-se grafado na parede, por exemplo, um desejo de força à atual presidenta e o agradecimento a Kirchner (Fuerza Cristina, Gracias Nestor)

O local tem menus com nomes de pratos e bebidas relacionados ao peronismo, fazendo referências a frases de Perón ou a termos conhecidos, como o prato “descamisada”, por exemplo.

O local tem ainda depoimentos escritos por clientes nas paredes. Qualquer um que vá ao Perón Perón pode deixar o registro de sua passagem escrevendo uma mensagem com canetão nas paredes. A maioria dos escritos se refere ao peronismo, com menção também ao atual governo do país.

As mesas são de madeira e há uma série de artigos relacionados ao peronismo, alguns à venda e outros apenas para decoração, como os objetos que estão dentro da mesa.

 

Serviço:

Horário de funcionamento: de segunda a sexta das 16h às 2h e aos fins de semana a partir das 18h.

Endereço: Rua Angel Carranza, 2225 – Palermo

 

Por: Fábio De Nittis

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